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Quanto Gastei Na Minha Iniciação? Candomblé É Uma Religião Cara? | Do Fala Aí, Ninha para o Blog!

Minha gente, vamos falar aqui um pouquinho sobre a questão do dinheiro no Axé. O candomblé é uma religião cara. Acho que é a religião, assim, que eu tenho mais familiaridade para fazer o comparativo. Por mais cara que seja, é uma religião em que a gente realmente investe na nossa paz, na nossa centralidade, na nossa espiritualidade. E é a religião em que a gente vê onde o nosso dinheiro está sendo investido. Tem essa diferença para outras religiões, porque às vezes, em algumas religiões, com todo respeito, a gente paga um valor e não está vendo direito onde esse dinheiro está sendo empregado.


No candomblé não. A gente dá valor e está vendo lá os bichos que a gente vai cortar para o santo. A gente dá o valor e está vendo a comida que a gente compra, os grãos que a gente compra para catar para fazer a comida do orixá. Então é uma religião em que a gente tem um costume, mas que permite ver onde o dinheiro está sendo empregado. E sim, gente, eu falo com muita naturalidade: a nossa religião precisa de dinheiro para funcionar. É um fato. Porque não é de graça. A cabra não é de graça, o balde não é de graça, o pato não é de graça, a galinha não é de graça. As coisas a gente precisa comprar. Não é de graça o grão de bico, não é de graça o feijão fradinho, o feijão preto. Então a gente precisa de dinheiro para fazer as coisas acontecerem e para poder realizar os rituais de forma correta.


É uma religião cara, sim. Agora, onde eu vi que mais gastei? Eu digo para vocês: foi no meu processo de iniciação. Se vocês me perguntarem onde foi que eu mais gastei, o que realmente comprei, esse tipo de coisa, eu não vou saber exatamente, porque no meu processo de iniciação a gente deu o dinheiro e as pessoas compraram as coisas para poder fazer os rituais. Então eu não tenho exatamente como dizer para vocês o que foi mais caro.


Eu tive que me preparar para a parte civil. Tive que me preparar, tive que comprar roupa branca. Minha mãe costurou muita roupa, então ela comprou muito tecido. Minha mãe fez parte das minhas roupas. Então tem essa coisa que eu não vou dizer para vocês onde foi que eu mais gastei. Eu sei que é caro. Sei que um bicho de quatro patas, por exemplo, gente, o bode, a cabra, está 400 reais, isso se a gente chorar com a pessoa. Senão, a gente compra por uns 600 ou 700 facilmente, até porque a inflação com esse presidente não vai ficar mais fácil nem mais barato fazer macumba.


Mas eu quero explicar para vocês o que é iniciação. Eu falei aqui porque foi para mim, mas, de fato, onde eu mais gastei foi na iniciação. A iniciação é o processo de literalmente se iniciar no candomblé, renascer em orixá. Tive essa lembrança muito forte. Meu processo de iniciação foi muito marcante e eu só tenho a agradecer às pessoas que cuidaram de mim no roncó. Tenho que agradecer a quem me iniciou. Sou grata mesmo, porque consegui entender que eu morri para renascer. E isso não tem preço.


Eu sempre digo para todo mundo que foi a coisa mais certa que fiz na vida: ser raspada no santo, ser iniciada no candomblé, renascer em orixá. Meu cabelo foi tirado. Estou falando com a Jéssica. Quem me acompanha no Instagram sabe quem é Jéssica. Eu até comentei com ela que foi muito importante porque eu estava no processo de tentar entender se faria ou não a transição capilar. Eu usava química, neutralizava o cabelo para me sentir aceita. Eu já falei isso na minha vida e no canal.



Foi importante porque eu já estava pensando em fazer a transição. Quando vi que ia me recolher para fazer o santo, falei que não faria a transição antes porque eu iria raspar e já nasceria o cabelo natural. Para mim foi muito importante porque foi o meu processo de construção de identidade enquanto mulher negra. Foi o meu reencontro com a minha sinceridade. Então, por mais que tenha sido cara, a iniciação foi a coisa mais importante que fiz na minha vida e não me arrependo.

Como a iniciação foi onde eu mais gastei, posso dizer para vocês como foi levantar essa grana. No meu caso, tive o privilégio, e sou muito grata a isso, da minha mãe custear a maior parte da minha obrigação. Teve gente que me presenteou de fato. Teve gente, mesmo de consideração, que chegou para minha mãe e disse que aquele valor era para a ferramenta de mão de Ogum, e deu esse dinheiro. Na época, fazendo um paralelo com o valor que está hoje, foi uns 700 reais, mais ou menos, considerando a diferença de sete anos atrás.


Eu fui ganhando muitas coisas, minha mãe bancou outras. Minha mãe até falava que a minha iniciação a faliu, porque foi muito puxado. Mas fui muito bem acolhida, não só financeiramente, mas também pelas pessoas ao meu redor.


Tenho três amigas muito importantes para mim. Elas estudaram comigo na minha última escola do ensino médio. Não cabe falar o nome aqui. Elas foram tão parceiras, tão amigas. Diandra, Jéssica, Andressa, estou falando de vocês. No meu processo de iniciação, elas foram para minha casa. Era aniversário de uma delas e elas se organizaram para comemorar lá porque eu não podia ir para a rua por causa do resguardo, dos fundamentos. E eu acho correto mesmo, acho que quando a gente se inicia no santo os resguardos devem ser sérios e rígidos, porque tem toda uma questão. A gente conversa sobre isso depois.

Elas foram para minha casa e respeitaram tudo. Cada uma com seu credo, sua crença. Chegaram, esperaram trinta minutos para me ver, para eu lavar o rosto e lavar o braço. Elas sabiam que não podiam me tocar e foram me ver no meu quarto. A gente cantou parabéns e ficou rindo. Foi um acolhimento tão grande das amigas, das pessoas que estudaram comigo, da escola onde eu sofria também bullying e afastamentos.


Minha família também me acolheu. Todo mundo. Meu tio é evangélico e super respeitou. Os amigos da família que cuidavam de mim perguntavam se eu precisava de alguma coisa. O acolhimento em geral foi muito grande. Até minha família paterna, que na época eu achava que não queria que ninguém se iniciasse no candomblé, respeitou a minha escolha. Meu pai tomou um baque, minha mãe disse que ele ficou uma hora sentado na poltrona sem falar nada, mas depois ele aceitou, entendeu. Foi um acolhimento não só financeiro, mas afetivo. E isso não tem preço. 


Até o próximo post aqui no blog!


 
 
 

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