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O que é ogã, iaô, abiã, ekedi e quais são as suas funções no candomblé? | Do Fala Aí, Ninha para o Blog!


Vou começar falando sobre abiã, porque tudo começa com o abiã. Nós, um dia, fomos abiãs. Não tem quem diga que não é, porque, para mim, a base é ser abiã. Então começo por aqui para depois explicar o que é iaô, o que é ogã, como acontece o processo de ser suspenso, o que significa ser iaô.


Eu falo "abiã" com muito carinho porque, na época em que eu e meus irmãos estávamos para nos iniciar no santo, a gente se dizia "do abiã". Passei uns três anos como abiã antes de fazer o santo, e guardei esse termo com muito amor e carinho.


Algumas pessoas, não todas, tendem a não ter o respeito certo pelo abiã. Não olham para os abiãs com amor, afeto e, principalmente, respeito. Tem gente que fala que abiã é "cabeça que não tem dono", que destrata, que fala de forma pejorativa, como se não fosse nada.


Mas se eu fosse definir o que é ser abiã, eu diria: abiã é semente. Os abiãs são sementes que precisam ser zeladas e cuidadas desde antes do plantio, para que possam se desenvolver quando estiverem prontas para nascer.


A gente precisa zelar, molhar, cuidar, alimentar. Antes da semente entrar na terra, ela precisa estar em um lugar arejado, sendo cuidada para não se perder no meio do processo e não deixar de dar fruto.

O abiã é semente, e sempre vai ser semente. Não existe terreiro de Candomblé que não tenha começado com abiãs. A casa só pode continuar crescendo se tiver abiã, porque a gente precisa fazer as coisas acontecerem nos processos. A pessoa que precisa se iniciar, a própria casa, o axé, tudo isso precisa de renovações constantes.


A verdade para mim é essa: a gente não faz axé, não tem como ser alguma coisa sem ter abiã. Eu fui abiã. Hoje sou mãe de santo, mas fui abiã, e esse percurso não se pode esquecer. A gente pode fazer 3, 7, 14, 21 anos de obrigação, pode chegar aos 40, aos 50 anos de iniciada, pode estar sentada como mais velha de santo, e ainda assim não pode esquecer de onde veio. Começamos como abiã.

Tanto ekedi quanto ogã são pessoas que não incorporam, eles não "viram no santo" e não "rodam". Existem várias nomenclaturas para o processo de incorporação, mas, em resumo, são pessoas em quem o Orixá não desce em transe.


Como é esse processo? Normalmente a pessoa passa pela fase de abiã e, quando está como abiã, pode passar pelo processo de ser suspensa. O ato de suspender varia muito de casa para casa, cada uma tem o seu jeito.


O pai ou mãe de santo não escolhe ao acaso, existe fundamento. Em geral, é o Orixá que vai ser zelado naquela casa que suspende a ekedi ou o ogã.


Depois de suspensos, ainda não são confirmados. Já começam a entender as coisas, podem fazer algumas funções dentro do axé, mas não podem fazer tudo, porque ainda não foram confirmados. Alguns fundamentos eles não têm autorização para mexer.


O processo começa assim: a pessoa estava como abiã, passa pelo jogo de búzios, o pai ou mãe de santo joga, o Orixá se manifesta e ali se entende se aquela pessoa será ekedi ou ogã. Cada casa tem seu jeito de suspender, com seus rituais próprios. Depois vem o processo de confirmação, quando a pessoa se prepara para fazer o santo direitinho, é recolhida e confirmada como ekedi ou como ogã.


O que é ekedi? Eu nunca vou saber exatamente como é ser ekedi, porque não sou. Mas aprendi que ekedi é uma mãe. É aquela que zela pelo Orixá, que guarda alguns segredos do santo, que não apenas o veste, não apenas dança, não apenas enxuga o Orixá no xirê. Ela está ali dentro do colo do axé, nos processos, nos fundamentos. Limpa o Orixá, cuida das coisas que dizem respeito ao santo, cuida da casa, dos rituais.

Ekedi é uma grande mãe. Por isso a gente tem tanto respeito, porque elas foram escolhidas pelos Orixás, assim como os ogãs, não por acaso, mas para zelar dos interesses deles aqui na Terra. É um grau de responsabilidade muito grande, uma função que deve ser levada com muita seriedade.


Sobre o ogã. Aprendi que existem vários tipos de ogã. Tem ogã de fundamento, ogã de couro, ogã de barracão, entre outros. Mas, no geral, ogãs também são pais escolhidos pelos Orixás para zelar pelos interesses deles aqui na Terra. Eles carregam fundamentos, segredos do santo, tocam, cantam, sustentam o axé com suas funções.


Ekedis e ogãs têm uma responsabilidade muito grande, que vai da folha colocada no pé do santo até o último ojá amarrado, até a última coisa colocada no corpo da matéria que está incorporada. É uma amplitude de responsabilidade que depende inteiramente deles.


Mas eu repito: essa função é de muita responsabilidade, e algumas pessoas se perdem no meio do caminho. Começam a criar uma certa prepotência, um nariz em pé, com o qual eu não concordo. Existem posturas de ekedis e ogãs com relação aos mais novos, aos abiãs, aos iaôs, que eu não acho justas nem corretas.


Uma coisa é ser ekedi, ser ogã, ter suas responsabilidades no terreiro, ser respeitado como tal. Outra coisa é abusar do poder que o Orixá entregou. Cabe aos sacerdotes e sacerdotisas observarem como ogãs e ekedis se comportam perante os mais novos e até perante os mais velhos, para que jamais existam abusos de poder dentro do terreiro.


Porque o Orixá não quer ninguém de nariz em pé. Orixá é pé no chão, é firmeza no chão. Tem que existir humildade e respeito em qualquer via, dentro e fora do terreiro.


Enquanto a ekedi e o ogã são pessoas que não incorporam em hipótese alguma, existe o iaô. 

Quem são os iaôs? Os abiãs que se iniciam no santo, aqueles que incorporam. Tem gente que diz que cabeça de abiã é vazia, que não tem santo. Não é assim. Tem abiã que já incorpora, que já tem a cabeça mais aberta para esse processo, e está tudo bem. Quando se iniciam no santo, quando aquela semente é colocada dentro da terra, se tornam iaô: iniciados em Orixá, confirmados como filhos daquele santo específico.


Para o iaô alcançar o status de mais velho dentro do terreiro, ele precisa passar pelas etapas das obrigações, que levam anos. Tem obrigação de 1 ano, de 3, em algumas casas de 5, de 7, depois 14, 21, e assim vai. Vai pagando suas obrigações, vai amadurecendo no santo.


O iaô, para mim, é a coisa mais linda. É aquela semente que já brotou, mas ainda é frágil. Sabe aquele caroço de feijão que todo mundo já plantou na escola? Você coloca no algodão, molha todo dia, ele vai brotando, vai crescendo, mas ainda é delicado. O iaô está neste lugar de fragilidade.


O processo de iniciação é um renascimento muito lindo. A gente está ali totalmente vulnerável, pronto para aprender, para ser ensinado, para ser moldado. É um universo muito novo, e ainda assim o coração está aberto e totalmente disponível. Os encontros que a gente tem durante a iniciação são únicos, e não cabe a ninguém de fora perguntar como foi, o que aconteceu lá dentro, quais são os segredos. É individual, é só seu.


Ser iaô é entender que você incorpora, que nem sempre as pessoas vão compreender que seu corpo fica mole depois da incorporação, que você sente o corpo dolorido, que algumas coisas mudam em você. A relação que a gente constrói com o próprio santo é nossa, não cabe a ninguém interferir.


Na minha opinião, as pessoas que constroem o conceito de que Orixá bate, pune e castiga o tempo todo estão equivocadas. Eu falo muito isso para os meus filhos de santo: construa uma relação de amor com o seu santo. Eu sou mãe de santo, estou aqui para garantir que os fundamentos sejam feitos corretamente, para jogar búzios, ver qual a qualidade do santo, como vai ser tal obrigação. Mas a relação de amor, de respeito, de pedidos e de respostas não precisa passar o tempo todo pelo pai ou pela mãe de santo. Essa relação é entre a pessoa e o Orixá dela.


Quando eu fiz o meu santo, escolhi construir uma relação de amor com o meu Orixá, e essa relação existe até hoje. Meu santo me ensina de forma tão afetuosa que muitas vezes passa batido para as pessoas que estou aprendendo alguma coisa. Não é no grito, não é na pancada. É respeito, é amor, é entender os limites de cada santo.


Quando o Orixá mostra o tempo todo o que a gente tem que fazer e a gente insiste em fazer o contrário, ele tira a mão de baixo e deixa a gente andar com as próprias pernas. Aí a gente tropeça nas próprias escolhas e diz que foi o Orixá que bateu. Não foi. A gente tomou decisões erradas e está colhendo as consequências.


Esse conceito de relação de amor, e não de medo, vale para todo mundo: iaô, ekedi, ogã, abiã. Ekedi e ogã, mesmo não incorporando, podem sentir, arrepiar, sonhar, ter visões. Essa relação de amor com o Orixá pode e deve ser construída da mesma forma por todos.


Ficou claro o que é ekedi, o que é ogã, o que é iaô, e o que é abiã? Não falei de hierarquia hoje, ficará como tema para outro momento.


Até o próximo post!


 
 
 

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