Como eu descobri que era Mãe de Santo — e por que assumi esse caminho!
- Tereza de Benguela
- 21 de jul.
- 4 min de leitura
Atualizado: 22 de jul.
Oi, meus amores. Aqui quem fala é Mariana Brito, Mãe de Santo, mulher de 32 anos, filha de orixá e de muita coragem. Hoje quero compartilhar com vocês um pouco da minha trajetória, de como eu descobri que era Iyalorixá — mesmo sem ninguém ter me dito isso no início — e de como foi o processo de aceitar e assumir essa responsabilidade aqui no século XXI, no meio de tanta tecnologia, tanta dúvida e, ao mesmo tempo, tanta fé.

Desde cedo, sempre levei tudo que faço com seriedade. Quando parei para cumprir minha obrigação de 7 anos, entendi que aquilo era um compromisso profundo com minha espiritualidade. Só que naquela época, eu não sabia que tinha cargo de Mãe de Santo. Ninguém me contou. Só depois de anos, quando já tinha saído da roça onde fui iniciada, é que soube que naquele barco, naquela leva de iniciações, tinha sido revelado que havia uma Mãe de Santo sendo feita. E essa Mãe de Santo era eu.
Durante esse tempo, fui morar em São Paulo. Mesmo assim, ainda não fazia ideia da missão que me aguardava. Algumas pessoas, como minha mãe biológica e a EkedjiCamila — minha amiga, minha irmã — já tinham dito: “Você tem cargo de Mãe de Santo”. Mas eu não acreditava. Não por falta de respeito, mas porque era difícil aceitar, difícil acreditar que aquilo era mesmo pra mim. A negação falava mais alto. A ficha começou a cair de vez, quando Camila, um dia, me ligou e falou: “Mari, você sabe que tem cargo, né?”. Aquilo me travou. Fiquei angustiada, sem saber o que fazer. Liguei pro meu namorado na hora, contei tudo. E ainda assim, com toda essa confirmação, eu continuava achando que podia ser coisa da cabeça dos outros.
Foi aí que tomei uma atitude. Comprei um obi africano — caríssimo, inclusive — e joguei pra Exu, perguntando se eu era Mãe de Santo. O obi alafiou na hora. A resposta foi direta, sem margem pra dúvida. Ali, naquele momento, a ficha caiu por completo.
Eu poderia ter escolhido não assumir. Poderia ter ignorado a obrigação de 7 anos, seguir minha vida. Mas eu sou teimosa, sou orgulhosa. E quando entendi que essa era minha missão, entreguei tudo nas mãos de Exu. Porque é ele quem abre os caminhos.
Nesse processo, encontrei meu Pai Antônio. Fui ao jogo com ele sem muita vontade, meio cismada, como a gente fala na Bahia. Mas bastou entrar na sala de jogo pra sentir uma conexão diferente. A energia dele me atravessou. E ali, na calma e no silêncio, fui escutando. O jogo foi certeiro. Ele me passou o que eu tinha que fazer, me deu as orientações, e eu fui digerindo tudo com calma.
Ainda assim, continuei desconfiada. Levei o papel com as recomendações pra casa, botei embaixo do travesseiro e fiquei ruminando. Até que minha mãe me chamou e disse: “No dia do seu Odù, seu orixá descreveu esse homem. Disse que ele seria quem poderia tocar na sua cabeça e te entregar seu cargo”. Aí não teve mais pra onde correr. Eu sabia. Era ele.
Meu pai Antônio me acolheu com carinho, com amor. A roça toda me acolheu. E isso, depois de tanto sofrimento dentro do Candomblé, foi uma bênção. Já tinha apanhado muito. Qualquer outra pessoa, no meu lugar, teria desistido da religião. Mas eu continuei. Esperei, procurei, até que Exu me mostrou o caminho.
Hoje sou mãe de santo com 32 anos, quando falei sobre tinha apenas 29 anos, recebi o cargo com 28 anos. Tenho filhos de santo mais velhos do que eu, cronologicamente falando, alguns da minha idade, outros mais novos. Todos me respeitam, e isso é o que importa. Mas não é fácil. Ser jovem nesse lugar de liderança é ter que lidar com o olhar atravessado, com a desconfiança, com o preconceito. As pessoas respeitam pastor, respeitam padre, mas ainda têm dificuldade de respeitar mãe de santo. E quando essa mãe de santo é jovem, aí que o julgamento é ainda mais cruel.
Mas eu tô aqui. Assumi meu cargo com a consciência de que sou humana. Eu erro, eu transo, eu choro, eu rio, eu sou grossa, eu sou doce, eu sangro. Eu uso short curto, biquíni, vestido longo. Sou filha de Ogun e filha do mundo. E não vou me encaixotar pra caber em expectativa alheia.
Recebi meu DEKÁ com essas palavras do meu pai de santo: “Tô te dando o cargo porque você tem vergonha na cara”. E isso bastou. Hoje cuido de cabeça, cuido de santo, cuido de gente. Mas não esqueço de mim. Não esqueço que, antes de qualquer coisa, sou gente também.
Muitas lideranças me disseram: “Acostume-se, a ingratidão é constante”. E eu já experimentei um pouco dela. Mas sigo firme. Porque meu compromisso é com o orixá, é com quem me procura de coração aberto.
Essa sou eu, Mariana Brito. Mãe de Santo. Iyalorixá de Ogun. Mulher de 32 anos que se constrói todos os dias, entre a dor, amor e o axé.
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