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Afinal, existe pecado no Candomblé? | Do Fala Aí, Ninha para o Blog!

Já pararam para pensar sobre o significado do pecado no Candomblé? Segundo o Google, pecado é uma violação de um preceito religioso, uma desobediência a qualquer norma ou regra, uma falta, um erro. Também significa ação má, crueldade, perversidade, ou ainda o que merece ser lastimado, pena, tristeza. Vivemos em um mundo cristão, um mundo onde as religiões de matriz africana, as crenças do continente africano, como o culto aos Orixás e as crenças muçulmanas, perderam legitimidade. Perderam valor, foram desconsideradas. Quero partir desse ponto.


Partindo desse pressuposto de que crenças que vêm de outros continentes, que são o eixo Europa-Américas, são vistas como crenças sem valor, o que é que prevalece? O catolicismo. O evangelho. A Bíblia.

Então, quando pegamos uma definição no Google, pegamos uma definição “global”, geral, baseada naquilo que tem mais voz no mundo  e o que tem mais voz no mundo hoje são as religiões cristãs. Por isso encontramos esse conceito de “pecado” nos buscadores.


Pensando dessa forma, trazendo essas reflexões, eu pergunto para vocês: vocês acham que, numa religião de matriz africana, deve existir o conceito de pecado?  Sabem os sete pecados capitas: Gula, preguiça, luxúria, ira, inveja, avareza e soberba? Eles são bíblicos, oriundos de uma construção católica e cristã. Esses termos são totalmente fora do contexto yorubá, do contexto africano, do contexto das religiões de matriz africana. 


Eu vou falar por mim, pelo Brasil, que cultua Orixá. Sou de culto ao Orixá, sou do Candomblé. A gente não deveria usar termos católicos ou cristãos dentro de religiões de matriz africana. Quando falo em pecado, falo em penitência. Quando falo em penitência, falo em punição.



Quem acredita em punição são as religiões cristãs. Orixá, na minha opinião, não pune. Não dá “shimba”.  Eu não acredito em shimba. Eu acredito em Orixá como amor, cuidado e zelo. Acredito que Orixá mostra uma, duas, três vezes o que você precisa fazer. Se você teima, como um pai ou mãe, ele educa. E, se educa, tira a mão de baixo. Isso não é shimba. É ensino. “Você não está aprendendo, eu tô te carregando aqui na mão. Vou tirar a mão para você andar com suas pernas, usar seu livre-arbítrio e aprender.” Às vezes a gente não toma boas decisões e não está “apanhando de Orixá”. Estamos colhendo a decisão que tomamos.

Na minha opinião, esse uso de termos cristãos dentro das religiões de matriz africana acontece há muito tempo, e eu sou totalmente contra. Eu converso com meus filhos de santo sobre isso e falo em qualquer roda que eu esteja. Eu não acredito no conceito de pecado.


Estamos neste mundo para aprender. E quando a gente aprende, a gente erra. Colhemos o fruto do erro ou da persistência nele. Mas isso não é pecar. Não para mim. Se não cultivamos esses termos católicos, de onde vem essa ideia de pecado no Candomblé?  Isso vem do sincretismo religioso, da cultura passada de geração em geração. Mas chegou o século XXI - 2026. Vamos continuar reproduzindo isso?

Comigo, não. Ogum não me escolheu para ser mãe-de-santo para eu trazer cultura do medo para meus filhos de santo. Ogum não me escolheu para usar termos cristãos e dizer: “Você errou. Você pecou. Você vai fazer penitência.” Já vivi isso. Meus irmãos viveram isso. Penitência por quê? Se Orixá, na minha opinião, é amor.


Por que usar o termo pecado? Por que usar penitência? Por que perpetuar uma crença que fez sentido no passado, mas não faz sentido agora? Sejamos humildes para rever isso.

Errar e acertar faz parte da vida. E viver com medo de “pecar” adoece. A gente precisa de saúde mental dentro da religião. Vamos desmistificar isso. Vamos respeitar a ancestralidade, ela fez sentido naquele tempo. Mas agora precisamos fazer diferente.

E vocês, o que acham?


Até o novo post!


 
 
 

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