Terapia e o Axé: Por Que as Pessoas de Santo Precisam Fazer Terapia | Do Fala Aí, Ninha para o Blog!
- Mariana Brito
- 27 de mai.
- 4 min de leitura
Falar sobre terapia, principalmente para as pessoas de axé, de santo, é um tabu muito grande. As pessoas nem imaginam o quanto isso é um tabu dentro da religião. Vira e volta, com pessoas mais antigas de santo, me deparo com histórias em que a terapia é tratada como um problema. Mas vou deixar claro desde já: todo mundo precisa fazer terapia, porque ninguém é tão dono da verdade, ninguém é tão seguro, ninguém é 100% paz e amor que não precise de um acompanhamento psicológico.
Na infância e adolescência, tive consultas com uma psicopedagoga, um recorte dentro da Psicologia que funciona muito bem e que me ajudou a me desenvolver. Depois de alguns anos, retomei a terapia aqui em Salvador, e foi crucial para sair de um lugar que eu não ia conseguir sair sozinha. A frase que a psicóloga, Dra. Graça, me disse no primeiro dia nunca me deixou: "Mariana, o seu problema é que você precisa pegar as rédeas da sua vida." Essa frase me acompanha até hoje. Toda vez que me vejo muito à mercê das pessoas ou sem saídas, paro, respiro e analiso como retomar as rédeas da minha vida.
Depois parei a terapia por questões financeiras, fui para São Paulo e fiquei um tempo sem acompanhamento. Após o fim de um relacionamento bastante conturbado e delicado, retomei a terapia, dessa vez dentro de um outro contexto, com a consciência racial mais entendida, sabendo melhor o meu lugar enquanto mulher negra nessa sociedade. Voltei a fazer terapia com uma psicóloga preta, e isso mudou muito a minha perspectiva. Estou com a Dra. Débora até hoje, e cada encontro com essa mulher é um movimento necessário que me convoca constantemente e me faz estar aqui, firme e forte.
Toda mudança que a minha vida teve durante esses últimos anos foi muito difícil. E às vezes conversar com um amigo, um parente, uma pessoa próxima não é suficiente, porque as pessoas nem sempre têm o preparo e a abordagem necessários. Psicólogos não passam anos estudando Psicologia à toa. Quando você conversa com um profissional, a abordagem é diferente. Não existem julgamentos, não existe apontar erros e falhas, não existe dizer como as coisas têm que ser feitas. Existe a possibilidade de mostrar os caminhos. A abordagem que funciona comigo é o diálogo, onde Débora vai me mostrando as possibilidades, e eu vou me desenvolvendo e me desenrolando na vida.
Para mim, fazer terapia é prioridade, assim como comer e beber água. Abro mão de algumas coisas para garantir que vou continuar com o acompanhamento. E trago isso dentro do contexto religioso porque sei dos preconceitos que existem. As pessoas pensam que fazer terapia é coisa de gente maluca, que não vai resolver problemas financeiros, que não vai resolver dores emocionais. Mas quando a gente começa a desmistificar isso, entende que a terapia é para todo mundo.

Quando decidi que precisava começar a fazer terapia, tinha mais ou menos dois anos de iniciada. Tinha passado por muitas demandas e dificuldades dentro do terreiro onde fui iniciada, questões que mexeram muito com o meu psicológico. Paralelamente, estava terminando a graduação, finalizando a especialização, saindo do universo universitário e entrando no universo profissional adulto. Certa vez, no terreiro, disse para uma pessoa mais velha de santo que ia começar a fazer terapia. Essa pessoa chegou para mim e disse: "Sua terapia aqui é tratar bicho, é fazer isso e aquilo." Falou com um tom agressivo e desnecessário, desmerecendo toda a necessidade de um cuidado psicológico. Aquilo foi uma das agressões mais difíceis que sofri dentro do contexto religioso.
Entendi naquele momento o quanto as pessoas desmerecem a necessidade da terapia, e o quanto existe uma linha tênue onde parece que não entendem, ou não querem entender, que quando uma pessoa começa a fazer terapia, ela se liberta. E é exatamente aí que está o problema. Muitos mais velhos de santo pensam que no momento em que o filho de santo começa a fazer terapia, ele vai se libertar ao ponto de não aceitar mais passar por determinadas coisas dentro do axé. E é um fato. Quando comecei a fazer terapia, alguns irmãos de barco também começaram, e a gente foi entendendo os limites necessários para colocar na vida, inclusive com os mais velhos e mais novos de santo. Se a liderança religiosa está vacilando, por que ela vai querer que os filhos tenham consciência do próprio lugar enquanto religiosos?
Na condição de mãe de santo, uma das coisas que oriento todos os meus filhos a fazerem é terapia. Não tenho medo nenhum de que meus filhos se conheçam, saibam os limites deles e me imponham esses limites. Ao mesmo tempo em que respeitam e entendem os meus. Fazer terapia vai além do contexto religioso. É para entender os caminhos, as fases da vida, os bloqueios. A terapia me traz um lado racional e me possibilita enxergar possibilidades. Sem acompanhamento psicológico, talvez eu não tivesse nem arriado minha obrigação de sete anos, talvez não tivesse aceitado a responsabilidade de ser mãe de santo do jeito que venho sendo.
Quando você tem um profissional te acompanhando, fala todas as suas incertezas e inseguranças em um lugar de cuidado, de ética, reservado. Ninguém precisa saber das suas dores, porque se souberem, pisam em você, fazem pouco caso, te desmerecem. Já vivi isso em um relacionamento amoroso, antes de retomar a terapia em São Paulo.
Muitas vezes, durante o jogo de búzios, olho para o que a pessoa está trazendo e vejo que parte do problema é a falta de acompanhamento psicológico. As pessoas tendem a buscar a fé antes de buscar o tratamento psicológico. E eu digo: realmente você precisa de uma limpeza, de uma oferenda, de tal cuidado espiritual, mas eu sozinha não dou conta. Você também precisa mudar a sua cabeça perante a sua vida. Vai para terapia. Às vezes só o santo não dá conta. Exu, por exemplo, é um Orixá que, se não vê o nosso movimento, não faz.
Por fim, digo com muito amor: faça terapia. Quebre esse preconceito, quebre esses conceitos estabelecidos sem fundamentos reais. E ainda digo mais: pessoas pretas, se consultem com psicólogos pretos. Isso faz muita diferença para a gente se entender nesse mundo extremamente racista. Eles conhecem as nossas dores, têm uma compreensão e um acolhimento maiores porque também passam ou passaram por situações parecidas ou iguais às nossas.
Até o próximo post do meu blog!



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