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Respondendo Perguntas Feitas Para Uma Mãe De Santo | Do Fala Aí, Ninha para o Blog!

Hoje explicarei mais sobre o candomblé: sobre como é ser e estar recolhido para o sagrado, sobre resguardos, sobre os cargos, sobre a possibilidade de casamento de uma mãe de santo, sobre macumba, energia e o que amo no candomblé. Perguntas que sempre chegam a mim e que hoje resolvi partilhar com vocês a partir da minha vivência. Vale a leitura!


Como Yaô, papel que tive antes de me tornar Mãe de Santo, minha primeira experiência de me recolher para o sagrado foi incrível. Tive muitos sonhos, sonhei com meus santos, tive muitas experiências sensoriais de conexão com a espiritualidade. Foi muito bonito.


A ideia de se recolher para o sagrado, depois que a gente se inicia, é que vamos pagando as obrigações de três, de sete anos. Tive outros momentos de recolhimento depois da iniciação, e cada um foi muito diferente, muito único. O recolhimento da obrigação de sete anos, por exemplo, foi um processo de catarse muito forte, uma reflexão sobre todos esses anos no axé, sobre a minha vida e sobre o mundo.

É um momento de entrega, de se permitir, um momento em que você fica vulnerável. Em todos os meus recolhimentos eu me senti vulnerável, mas um vulnerável protegido. Entreguei toda a minha confiança, toda a minha fé, todo o meu querer às pessoas que estavam ali cuidando de mim e, principalmente, ao Orixá.


Não me arrependo. Para mim, ter iniciado, ter feito tudo direitinho e seguir a religião como Ogum pediu e deseja é algo que não troco. Mas digo também: tem que ir quem tem fé, quem quer, porque não é fácil. Mas tem suas belezas.


Como conselho, guardem a própria experiência dentro de um Ilê, dentro desse recolhimento para o sagrado. Porque ela é só sua. Os sonhos são seus. Os pensamentos, as vidências, a mediunidade, tudo ali é o seu sagrado.


Guarde, porque nem todo mundo vai ter a honestidade de lidar com as informações que você traz com tanto carinho. Isso é extremamente importante. Tem coisas que ninguém nunca vai saber que eu vivenciei e senti no meu corpo, e tem coisas que comentei apenas com quem realmente deveria saber, como meu Pai de Santo. É uma experiência que só sabe quem passou. Quem passa não tem como explicar de outra forma.


O Candomblé tem as suas particularidades, e uma das perguntas que mais recebo é justamente sobre as restrições que a religião impõe.


A gente fala em restrição porque entende como algo ruim, e fica pesado porque as pessoas não conseguem entender o que está por trás disso. Logicamente, temos resguardos. Resguardo de corpo, resguardo de boca, porque não se pode comer algumas coisas. Tem gente que tem quizila e não pode comer determinados alimentos. Há indicações de que em tal dia não se pode ter relação sexual, não se pode beber, e assim segue. Tem gente que não pode usar determinadas cores.

Cada pessoa no axé tem seus enredos, e eu vejo tudo isso como uma forma de cuidar melhor do caminho religioso. Não vejo como restrição pesada, mas como: descobri que tal cor não é boa para o meu caminho, então não vou usar. Vou me libertar dessa cor para que meu caminho flua. Não vejo como restrição algo feito para o meu benefício.


Sim, falando de forma popular, existem coisas que nos impedem de faze

r outras por conta desses cuidados. Eu mesma sou uma pessoa que não como manga. É minha quizila, mas sigo minha vida tranquliamente - está tudo bem. Gente de axé, pelo menos como aprendi, não ingere nada com cajá porque traz a energia de legbará, e a energia de legbará não faz o caminho andar. São restrições, mas são limites que protegem a nossa caminhada.


Outra pergunta que sempre respondo sobre o candomblé é sobre a importância dos cargos no Candomblé e quais são eles, um tema que daria horas de conversa tamanha sua complexidade e diversidade.

A importância do cargo está em guardar o segredo e as responsabilidades que a pessoa carrega. Na minha opinião, o cargo nunca vem de um lugar de poder para pisar ou humilhar alguém. A hierarquia é necessária para entendermos quem tem mais conhecimento e pode passá-lo para os mais novos. Às vezes, quem está acima nem sempre tem mais conhecimento que quem está abaixo, mas está ali com responsabilidades específicas.


Os cargos ajudam a administrar o terreiro de forma mais organizada. E ninguém escolhe cargo. Não é porque fulano tem perfil ou não. O Orixá responsável diz no jogo de búzios qual filho pode receber tal cargo. Às vezes a pessoa nem tem perfil, mas se o santo quer, a gente dá o cargo e ensina.


Será que uma Mãe de Santo, pode casar? Claro, ela pode casar, parir e não casar, se quiser.  Falamos pouco sobre a sexualidade das lideranças religiosas, principalmente das mães de santo. É complexo porque, na religião, os pais de santo são vistos como viris, homens que podem tudo, ativos, desejados, e tudo bem. Mas quando olham para uma mãe de santo, esperam santidade absoluta. Que a gente não fale palavrão, não transe, não sangre, não erre. Isso é um recorte religioso e também social, onde sabemos muito bem onde colocam os homens e onde colocam as mulheres. Estamos há muitos anos lutando contra isso.


Eu posso tudo. Posso casar, posso sangrar, posso gozar, posso chorar, posso sentir raiva, posso dizer não quero e posso dizer quero. Faço o que eu quiser na minha vida, logicamente abaixo de Deus, abaixo de Ogum e dos orixás. Meu santo, bom do jeito que é, não me nega nada. E que continue assim, porque é uma relação de amor que construo com Ogum e com todos os meus orixás, caboclos e erês.


Sobre a macumba, o que de fato é macumba? Macumba, tecnicamente, é um instrumento musical, e é isso que você encontra ao pesquisar no Google. Popularmente, o termo é usado para falar de feitiço, de ebó, que é o termo correto. O ebó pode ser feito para o bem ou para o mal, assim como qualquer feitiço. O contexto em que a palavra é usada é o que define seu significado.


Tudo no Candomblé envolve energia, e manipulá-la é parte essencial da prática religiosa. Existem coisas que fazemos no mental e coisas que fazemos no físico, no material. E sim, as entidades trabalham. Para que elas trabalhem, fazemos ebó, feitiço, um trabalho no material, um ebó, algo para elevar a energia, um padê para Exu. Exu é o Orixá da troca: você dá algo a Exu e ele concede algo em troca. Assim funciona.

Manipulamos energia quando cozinhamos uma comida e colocamos a energia de Oxum ou de Ogum ali. Isso é manipulação. Mas nem tudo é só oração ou passe. Às vezes só o passe resolve, outras vezes não. E as pessoas têm preconceito com isso, mas quando a coisa aperta, o passe por si só não resolve. Aí tem que ir ao terreiro, fazer um trabalho no corpo, fazer o que tem que ser feito.


E sabe o que eu mais amo no Candomblé? O cansaço do pós-macumba. Sempre digo isso. Depois de deixar tudo limpo e arrumado, tomar um banho, botar roupa limpa e deitar com o corpo cansado. É um sono gostoso, diferente. Sou apaixonada por isso.


O que eu menos gosto? A prepotência e a arrogância de muita gente do axé. É muito difícil lidar com isso. Detesto também a falta de comprometimento de quem está na religião. Se é para fazer, faça. Não pode ser moda. Finalizo falando do preconceito e do racismo religioso. 


Mas dentro do axé, eu não consigo enxergar dificuldade quando se fala do sagrado. Tem que fazer o que tem que ser feito. Para ser bem prática: às vezes, quando a gente vai à feira e não tem carro, compra muita coisa e o Uber não quer pegar porque tem bicho. Hoje em dia já existe entrega de bicho na feira justamente por isso. Ou quando estamos com muita coisa e o motorista se recusa. Isso é uma dificuldade, mas é lidar com gente, do mesmo jeito que em qualquer outra situação.


Cuidar do sagrado, para mim, não tem dificuldade. É só fazer o que tem que ser feito. O que tenho enfrentado, isso sim, é a dificuldade de levantar meu terreiro. Quem quiser ajudar, estamos aceitando doações para pagar a terra.


Até o próximo blog.


 
 
 

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