Os Segredos do Candomblé e a Internet - O exibicionismo no Candomblé | Do Fala Aí, Ninha para o Blog!
- Mariana Brito
- 3 de jun.
- 4 min de leitura
No texto anterior, trouxe como o Orixá é mistério, como a espiritualidade é regada por mistérios, e como existe um padrão que vem da oralidade dos mais antigos para os mais novos sobre como cuidar do santo. Mas acredito muito que cada Orixá tem suas particularidades, seus mistérios constantes, e que esses mistérios estão sempre em renovação, sempre sendo mostrados. Cabe ao sacerdote, ao pai e à mãe de santo entender esse lugar de constante aprendizado.
Pensar sobre os segredos do Candomblé dentro do século 21, da internet, onde todo mundo quer viralizar, todo mundo quer ser famoso, todo mundo quer ganhar dinheiro, é muito delicado quando se trata dos segredos do axé.
Quer saber como os segredos são mantidos e preservados dentro da religião?

Bem, eles são mantidos e preservados dentro de um contexto de oralidade. São ensinados através da fala, passados de geração em geração. Algumas casas têm a cultura de dar um caderninho para os filhos de santo anotarem os aprendizados. Recebi um caderninho de Candomblé e vou anotando os aprendizados, entendendo a importância de que esses cadernos não podem ser divulgados, compartilhados, porque a gente entende o peso do que está escrito lá. A religião não é escrita, não tem livros para ensinar. Os segredos são passados no tempo certo, para os filhos certos, dentro da casa, na hora certa, na oralidade. É assim que a gente preserva uma religião secular que se manteve firme e forte até hoje.
Com o uso da internet, existe um exibicionismo muito grande. Sou totalmente contra muitas coisas que vejo do Candomblé na internet. Acredito que a gente tem que entender os limites. Utilizo a internet para falar sobre religião, mostro a minha rotina, o meu cotidiano, mas dentro de uma abordagem com senso de responsabilidade. Não acho correto mostrar como se corta um bicho, mostrar como se raspa, como se fazem os fundamentos, mostrar rituais dentro do roncó. Isso é uma faca de dois gumes: mostra sem explicar direito, e as pessoas começam a criar as mais variadas interpretações sobre uma religião que já sofre muita perseguição, muito preconceito, muito racismo religioso.
Mostro pedaços, mostro partes, mas nunca mostro a receita completa. Esse é o meu papel. O que falta em muitas pessoas que falam sobre Candomblé nas redes sociais é exatamente isso: senso. Ou, sendo mais direta, é o fato de querer ser famoso, de saber que esses segredos mais profundos vão fazer sucesso na rede. Mas a que custo?
Sei que tem gente que me condena, que acha que estou mostrando demais. Mas ninguém para para entender como funciona o que mostro, ninguém pergunta quais são os fundamentos, só jogam a pedra e criticam. Um dos aprendizados que tive com meu pai foi exatamente esse: as críticas são o que mais vamos receber, então não se preocupe. Viva sua vida pensando em fazer o certo por Orixá. E é assim que busco viver. Meu compromisso é com o santo. Quem está exibindo e mostrando fundamentos, o compromisso deles também é com o santo, e o santo vai colocar ou tirar a mão quando quiser.
Existe punição para quem revela os segredos? Não acredito em punição, não acredito em pecado, não acredito em penitência. São termos extremamente católicos, extremamente embranquecidos, e não é com esses conceitos que a religião deve existir. Acredito que os Orixás conduzem as coisas. O universo é cíclico: se você faz aqui, vai receber um retorno ali. E aí ninguém pode dizer que foi o Orixá que fez isso ou aquilo, porque Orixá, na minha opinião, carrega a gente na palma da mão, mostra o caminho certo, fala nos sonhos, mostra no jogo de búzios, faz as pessoas trazerem informações. Se a gente continua andando na estrada errada, o Orixá se cansa, tira a mão e deixa a gente andar com as próprias pernas, usar o que tem de melhor ou de pior, que é o livre-arbítrio. E aí a gente cai, porque está tão acostumado a ser carregado que não sabe andar direito. E o universo olha e diz: está na hora de colher.
Existe um limite para a propagação dos segredos? Na minha opinião, não se pode mostrar como se inicia um iaô, como se confirma uma ekedi, como se corta para o santo, o que se coloca, os temperos, as coisas que fazem a religião estar viva até hoje. Mostrar o santo incorporado, tudo bem, não gosto mas respeito. Mas mostrar os fundamentos, aqueles segredos que são tão restritos que eu nem me arrisco a dizer que existem, isso não se pode. Somos responsáveis pelo que falamos, mostramos e fazemos. Não somos responsáveis pelo entendimento do outro, mas somos responsáveis pelo que mostramos. E nós, enquanto sacerdotes, enquanto religiosos, temos a obrigação de guardar esses segredos e esses fundamentos.
Tudo que faço mediante a religião é sempre consultando a minha espiritualidade, para não ser leviano. Se não é para mostrar, não mostro. Se não é para falar, não falo.
Para quem pesquisa sobre Candomblé na internet: pesquise, olhe, mas procure pessoas que realmente passem credibilidade e confiança, e mesmo assim reflita com cuidado. Nada substitui chegar a um terreiro de axé, sentar no chão e ouvir o mais velho falar. É assim que se ensina no axé. Nossos conhecimentos e aprendizados são ancestrais, e o real aprendizado verdadeiro só se tem dentro do terreiro de Candomblé.
Até o nosso próximo encontro, no próximo post!



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