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O que é jogo de búzios? Qual objetivo? Posso perguntar tudo no jogo? | Do Fala Aí, Ninha para o Blog!



Quero escrever sobre o jogo de búzios, até porque as pessoas perguntam muito e têm muitas dúvidas. Então não tem por que a gente não falar sobre algumas coisas.

Falar sobre o jogo de búzios, é uma temática muito gostosa para mim, eu me sinto à vontade para falar sobre isso por conta do que eu já venho passando. As pessoas às vezes me perguntam o que é o jogo de búzios, o que significa, como funciona, ou até dizem que nem sabem que perguntas fazer. Vocês me falam um bocado de coisas desse tipo, e eu acho isso uma delícia, porque me possibilita contar um pouquinho do que aprendi.


O que eu vou contar aqui para vocês é oriundo de ensinamentos que eu tive de mais velhas de santo. São ensinamentos que não são fundamentos nem segredos do Candomblé, e por isso posso compartilhar. Também porque, há um tempo, eu fiz um curso com um professor maravilhoso, um curso de Cães Reais. Ele contou para a gente o processo da criação do mundo, que envolve o surgimento dos búzios e como esse processo teria sido criado.


Sem me alongar na história, digo a vocês que Olodumaré, que é Deus para nós, em yorubá, criou o mundo. E dessa criação maravilhosa surgiu a oportunidade de que os Ajoguns viessem e roubassem os segredos da criação do mundo. Guardem essa palavra: segredos. É muito importante.


Os Ajoguns, fazendo um paralelo com religiões cristãs, seriam como os cavaleiros do apocalipse. Fazendo apenas um paralelo, não que seja a mesma coisa. Eles ameaçaram chegar e roubar os segredos da criação do mundo. Esses segredos nós chamamos de odus.


Existem mais de 300 odus na cultura yorubá, mas no Brasil cultuamos os 16 principais. Esses 300 fazem parte do processo dos segredos, são caminhos que fizeram parte da criação do mundo e também da criação dos destinos de todos nós.


Então, diante da ameaça dos Ajoguns, Olodumaré chamou Exu e disse que precisavam resolver aquilo. Exu respondeu: “Deixa comigo”. Ele então pegou todos esses segredos, todos esses caminhos, todos esses odus que existem da criação do mundo, e os codificou no jogo de búzios, no merindilogun, no ifá. Codificou esses segredos no jogo. As quedas do jogo mostram muitas coisas; os odus falam o que precisam falar dentro desse processo.


Mas, sabe qual é a importância do jogo de búzios? As pessoas nascem com seus odus, com seus caminhos traçados. Isso faz parte da criação do mundo. Não existem apenas odus que criaram o mundo; existem odus que criaram nós, seres humanos. Todos nós nascemos com esses caminhos na nossa vida, na nossa cabeça. O jogo de búzios mostra o seu caminho: religioso, financeiro, amoroso, os caminhos que estão ligados e os caminhos específicos e exatos com os quais você nasceu. Você nasce com alguns odus determinados pela data do seu nascimento. O jogo vai mostrar quais são e apontar o caminhar.

Mas o que devo perguntar no jogo de búzios? Perguntam de tudo. Eu acho que não existe um direcionamento rígido. O que posso dizer é que deve haver sabedoria, porque quando a gente pergunta é porque quer resposta. Então é preciso saber se você está preparado para as respostas que vão vir através do jogo.


Saibam que nem todas as suas perguntas serão respondidas. Porque existe a sabedoria que vocês precisam ter e existe a sabedoria do jogo. Se o jogo não quiser abrir, não quiser mostrar, não quiser falar, ele não vai falar. Você não tem que culpar pai ou mãe de santo por isso. Se o jogo não falou, é porque não era para ser falado naquele momento, ou porque você não estava pronto para saber, ou porque não era para aquele pai ou mãe de santo ver a sua vida. E está tudo bem. Isso não quer dizer que a pessoa seja ruim ou boa. Quer dizer apenas que o seu caminho não quer se mostrar, e você precisa respeitar sua caminhada e sua estrada, com o que você carrega dentro desse contexto.


O jogo precisa “alafiar”, ou seja, confirmar. É uma confirmação. Embora algumas pessoas usem esse termo em outros contextos, ele é oriundo desse processo do jogo de búzios, do jogo de obi. Tudo isso vem desse contexto, desse processo do alafiado.


Sobre a minha experiência, eu digo a vocês que eu eu conto tudo o que vejo no jogo. Porque se o jogo está mostrando, é porque é para ser dito. Mas uma coisa que eu faço muito é buscar saber no jogo se a pessoa está preparada para saber. Não quero que ninguém saia da minha mesa pensando em desistir da vida ou comprar um carro no dia seguinte. Não é assim.


Eu tenho muita sabedoria ao falar as coisas e me vigio muito porque tive algumas experiências pesadas no jogo, que eu nem compartilhei com meu pai de santo, porque me marcaram e me chocaram. Escolhi contar porque acredito que, se está sendo mostrado, é porque é importante. Mas antes de contar, eu providencio saber se a pessoa está preparada. Nunca aconteceu de alguém não estar preparado. Mas tudo depende de como se fala. Sempre respondo com muita doçura, cuidado e ponderação, escolhendo bem as palavras para dizer o que eu vejo. Essa postura vale para a vida inteira.


Na vida, a gente tem que saber como se expressar, como falar com o outro. É preciso cuidado com a fala. E na mesa do jogo esse cuidado deve ser duplicado ou triplicado esse cuidado. Precisamos cuidar da sensibilidade do outro; percebam que quem chega na minha mesa chega com fé e também chega com medo das respostas, com dúvidas, com emoções mexidas, em ebulição.

Eu agradeço muito ao meu santo, porque eu peço muito para que cheguem à minha mesa pessoas que eu tenha capacidade de cuidar e ajudar. Agradeço a Ogum, agradeço a Iemanjá por me dar sabedoria na fala, agradeço a Oxum por me dar doçura para passar o que as pessoas precisam saber.


Sobre como as pessoas seguem a vida depois de um jogo de búzios, eu posso dizer que busco acompanhar, mesmo aqueles que só apareceram uma vez. Isso não é obrigação de pai ou mãe de santo, porque a gente tem muita coisa para fazer na vida, e a nossa humanidade também precisa existir, mas sempre que lembro, eu mando mensagem, pergunto como está. E toda vez que termino um jogo, eu digo: qualquer coisa, você pode me procurar, mandar mensagem, me ligar, que eu vou atender, vou responder. Eu deixo sempre a porta muito aberta, porque o outro precisa se sentir seguro. É quase como uma consulta médica: requer cuidado.


O jogo de búzios mexe com a pessoa, eu mesma fico mexida. Quando meu pai abre o jogo para mim, ou quando abro algo para ver questões específicas, eu fico mexida. Imagine quem não está acostumado.

Vejo que a maioria das pessoas saem reflexivas do meu jogo. Informam que vão refletir, vão pensar… Graças a Ogun, nunca aconteceu de uma pessoa sair do meu jogo sem ter as respostas que estava precisando ou querendo. Nunca aconteceu de eu não ter dado o acolhimento que a pessoa precisava. Digo isso com muita humildade, porque não sou a dona da razão e não acho que estou sempre certa, apenas atesto a minha experiência.


Meu jogo é muito conversado. Sempre questiono o que o outro está achando ou sentindo e dou a chance de a pessoa falar a verdade, porque o jogo de búzios a revela. Meu papel é trazer a pessoa para o lugar da sua própria verdade: você está se sentindo assim? Não tem alguma coisa errada? É importante que ela se manifeste, sentindo-se livre para se comunicar melhor comigo durante o jogo, o que torna a conversa mais tranquila e genuína.


Eu me coloco muito nesse lugar, deixo as pessoas à vontade e faço com que elas realmente reflitam. E até quando me falam "vou refletir sobre isso", eu digo: reflita e, qualquer coisa, me procure!

Espero ter conseguido compartilhar um pouco do que é o jogo de búzios, como ele funciona na prática e como foi construído a partir do que aprendi com os meus mais velhos, no santo e também como professor.


Até o próximo post!


 
 
 

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