O QUE É e COMO FUNCIONA O RESGUARDO no candomblé? | Do Fala Aí, Ninha para o Blog!
- Mariana Brito
- 20 de mai.
- 4 min de leitura
Meu Processo de Iniciação e Resguardo
Tenho oito anos de iniciada e alguns meses. O vestido que uso enquanto escrevo esse texto foi costurado pela minha mãe biológica para o meu processo de resguardo. Minha mãe costurou 45 peças de roupa na época para eu utilizar, e eu as tenho até hoje. Escolhi falar sobre esse processo com essa roupa porque ela representa o quanto o amor esteve presente em tudo, e o quanto me mantive com lembranças vivas sobre a iniciação e o resguardo.
Antes de falar sobre o meu processo especificamente, quero dar uma pincelada sobre o que é a iniciação. Tenho mania de dizer assim: é morrer para nascer. É um renascimento, onde você renasce para o seu Orixá. É grandioso, é mágico. Cada pessoa passa pelo seu processo de forma única e individual. Tem coisas que são só suas, que ninguém nunca vai saber. Se iniciar no axé é renascer para o Orixá, é entender que você está ali em prol do santo. Os fundamentos que envolvem esse processo só quem já passou ou vai passar vai saber.
Me recolhi no final de 2014 e minha iniciação como filha de Ogum foi no início de 2015. Foram aproximadamente três meses no terreiro ao todo, considerando o recolhimento, a iniciação e o pós-saída.
Tenho receio de dizer, mas meu processo de resguardo seguiu fundamentos um pouco mais antigos do que os que se praticam atualmente. Não digo isso para fazer comparativo nem para dizer que o meu jeito foi melhor do que o de ninguém. Respeito todos os processos. Só digo que o meu foi um pouco mais dentro de alguns fundamentos mais antigos, e vou explicar o porquê.

Fiquei um ano de resguardo usando branco. Um ano dormindo no chão. Um ano tomando banho de balde. Um ano comendo de colher no pratinho esmaltado e tomando água no copo esmaltado. Fiquei seis meses de resguardo de joia, sem poder tocar em ninguém. E fiquei um ano de resguardo de corpo, no contexto sexual. Não podia usar calça, não podia usar short, tinha que andar sempre coberta. Foi um ano sem praia, sem beber, sem frequentar a casa de ninguém, apenas a casa dos meus irmãos de barco.
Aqui quero contar uma história que aconteceu durante esse processo. Quando o período de resguardo de corpo estava se encerrando, eu estava andando para a academia, pensando: agora vou poder abraçar minha mãe, vou poder conhecer alguém. E aí, dentro da minha cabeça, ouvi claramente: não, eu quero que fique mais seis meses. Foi a primeira vez que ouvi alguém falando diretamente comigo dessa forma. Fiquei incrédula, achei que era coisa da minha cabeça. Quando cheguei perto da academia, alguma coisa caiu no chão na minha frente. Fui ao terreiro no final de semana, todo mundo foi liberado, e eu não contei nada. Fiquei quieta e cumpri mais seis meses de resguardo de corpo.
O mais curioso foi que, durante todo esse período, era como se eu fosse invisível. Passava em frente a obras e ninguém me olhava, ninguém me chamava atenção. E quando fechou um ano certinho da minha obrigação, andava na rua e todo mundo me olhava, recebia convites para sair. É muito louco perceber essa disparidade de energia de um período para o outro.
Mesmo com tudo isso, a rotina era possível. Me formei em 2015 e ia para a faculdade normalmente, que por sinal era evangélica e ficava ao lado de uma igreja. Ia para o curso de teatro, para a especialização. Não podia ser tocada, então não fazia atividades de contato físico. Dormia no chão, comia no meu pratinho. Existia uma rotina, mas uma rotina comedida, sem a liberdade que a gente tem fora do resguardo.
E foi nesse processo que entendi completamente que o meu corpo é um templo. O templo de Ogum, o templo dos Orixás que incorporo. Eu precisava preservar esse templo, respeitar o processo que ele estava passando. E depois do resguardo, entendi que essa preservação precisava continuar, com mais liberdade, mas sempre com atenção às energias, aos lugares onde caminhava, ao que fazia.
Passei por coisas muito delicadas no processo de recolhimento, de iniciação, de pós-iniciação, questões intensas vivenciadas no terreiro onde fui iniciada. Não estou aqui para falar mal de ninguém, mas quero dizer que tudo isso serviu para eu entender a importância do respeito com os mais novos, e o quanto a religião é importante para mim. Porque não continuo no axé pelas pessoas. Continuo pela fé. Quando as pessoas não nos cabem mais, quando a gente não cabe mais num ambiente, a gente se retira. Mas não precisa deixar de cultuar a própria fé. Quando a gente tem compromisso com o Orixá, com a própria religiosidade, a gente encontra um lugar que acolhe e segue.
Certa vez, perguntei ao meu santo o porquê de ter passado por tudo que passei. Questionei muito. E um dia, próximo ao momento em que descobri que tinha cargo, ouvi a resposta: você teve que aprender a como não ser. Isso é muito forte. Aprender a como não ser é tão importante quanto aprender a como ser. Essa resposta mudou toda a minha perspectiva e o meu horizonte sobre as coisas.
O Candomblé é uma religião cara, ninguém pode dizer que não é. Existe uma relação de troca em que a energia monetária é necessária para que as coisas aconteçam, e é preciso ter consciência disso desde o início.
Até o próximo post do meu blog!



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